Será que toda constância precisa vir acompanhada de sofrimento, ou existe uma forma de ser constante sem se ferir?

Esses dias uma amiga me fez exatamente essa pergunta, após ter visto um vídeo de um homem falando sobre o tema e explicando que os dias mais sofridos são os que proporcionam melhores resultados. 

Eu sinto uma tristeza só de pensar nisso! Precisamos desconstruir essa ideia cultural de que constância é sinônimo de rigidez e exaustão. É certo que fomos educados a acreditar que só há valor no que custa lágrimas ou esforço extremo, mas não precisa ser assim e hoje eu vou te contar como o contrário tem funcionado por aqui.  

Pode ser que você veja meus vídeos falando que escrevo todos os dias há seis anos e pense que sou uma pessoa extremamente disciplinada, mas a verdade é que isso foi uma construção e o primeiro passo foi perceber o que eu gostava de fazer, as minhas habilidades naturais e o que me dá prazer. 

No começo eu não estava focada na escrita, a minha motivação era ver o nascer do sol. Na época eu ainda morava no Brasil e estava lidando com a minha saúde mental, eu sabia que precisava mudar alguns hábitos na minha vida e estava em uma fase de investigação e de testes. 

O prédio em que eu morava tinha um terraço virado para o mar e o que me motivava era ver o sol nascendo na água, o silêncio de uma manhã tranquila e a escrita foi consequência desse momento. Era a sensação da quietude que me fazia levantar ao primeiro toque do despertador mesmo no frio do inverno, eu sabia que aquilo me preenchia e eu dormia sorrindo já pensando no dia seguinte. 

Tem seis anos que eu escrevo todos os dias, sem perfeição, apenas organizando o meu mental e colocando para fora o que precisa ser dito. Hoje, eu não preciso mais do nascer do sol para me motivar, porque eu já integrei esse hábito saudável na minha rotina, mas eu precisei criar uma forma que continuasse funcionando para mim. Por isso, logo pela manhã, quando acordo eu faço o meu chá e escrevo, deixo transbordar sonhos, pensamentos e a escrita virou parte da minha terapia diária. 

O mesmo aconteceu esse ano, quando criei o quadro Chá com a Bruxa Mãe. Onde me propus a trazer diariamente uma mensagem para inspirar e direcionar a nossa energia para o dia. A minha motivação era treinar a minha intuição, tirando uma carta e traduzindo em um vídeo curto o significado dela para incentivar quem estivesse ouvindo a seguir confiando também na própria intuição. 

Na época eu buscava uma forma criativa de estar mais presente nas redes sociais, mas cuidando da minha energia em vez de drená-la. Logo que gravei o primeiro vídeo,  percebi que era algo extremamente fácil pra mim e que conseguiria manter. Foi o que fiz, mudei os baralhos, a forma de apresentar ao longo dos meses e encontrei uma fórmula de tornar cada vez mais fácil e divertido. E a consequência está sendo ter conteúdo diário sem me esforçar. 

Talvez você me acompanhe e me veja ali todos os dias e pense, como ela consegue?! Mas a verdade é que eu precisei respeitar a minha forma de ser. Ter que gravar todos os dias seria impossível, então, eu escolho um dia na semana e gravo vários. Dessa maneira eu estou conectada ao meu ciclo, porque nem todos os dias estamos com a mesma energia. 

Inclusive, a frustração acontece também porque a maioria dos métodos foram desenvolvidos por homens, que operam de uma forma muito diferente da nossa. Seus ciclos são lineares enquanto nós, mulheres, vivemos em uma montanha russa. Quando olhamos para o nosso corpo, fica muito mais leve e conseguimos encontrar uma forma que funcione para nós. 

Nossa criatividade é parte de quem somos, a barreira que temos que ultrapassar é a negligência do fácil. A gente se acostuma, por conta desses discursos de sofrimento, a não valorizar o que é fácil pra gente e ficamos na busca constante do difícil. E é aqui que o autoconhecimento entra, precisamos resgatar o que é divertido e trazer de uma maneira possível para dentro da nossa rotina. 

A comunicação sempre foi natural pra mim, mas encontrar o caminho que me trouxesse paz e alegria, foi uma jornada que a escrita me ajudou a enxergar. O Chá com a Bruxa mãe tem me ensinado muito sobre a minha forma de criação, porque nessa jornada eu deixei também para gravar em cima da hora, tive um resfriado e quase tive que pular uns dias, o que me deixou ansiosa e frustrada, mas foram essas emoções que me motivaram a reorganizar a minha rota e gravar vários quando estou me sentindo bem, porque eu sei que não funciono sob pressão (e cá entre nós, provavelmente você também não – essa é uma outra falácia que nos contaram sobre produtividade).

É possível conseguir constância de uma forma que cabe dentro da rotina e na maioria das vezes ela não é como foi apresentada pra gente. Quando entendemos que a constância não é fazer exatamente a mesma coisa todos os dias do mesmo jeito, mas sim manter o compromisso com a nossa essência e propósito, adaptando o formato à nossa energia de cada fase, tiramos o peso da produtividade e focamos no que realmente importa, o processo criativo.

Meu convite hoje é pra ti abandonar a culpa e se permitir começar algo sem a cobrança de ser todos os dias iguais, encontrar no teu jeito único de ser uma fórmula que funcione pra ti. E claro, se precisar de uma ajudinha, conta comigo nesse resgate 🙂

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